quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Em defesa da Psicanálise, uma crítica aos Psicanalistas.

A Psicanálise é uma Meta-Psicologia que começou a ser edificada por Sigmund Freud (1856 - 1939) em seus trabalhos sobre a Histeria, um mal bastante comum em sua época que intrigava os médicos, pois a Histeria possui uma grande variedade de sintomas físicos e nenhuma explicação biológica.

Assim, Freud desenvolveu uma forma de tratar doenças Psicossomáticas. A Cura pela Fala! E, através dessa prática construiu um rico corpo teórico sobre o assunto. Sempre partindo, todas as suas especulações sobre o psiquismo, de estudos e experiências práticas.

Algumas idéias podem se mostrar ultrapassadas, entretanto devemos considerar o conhecimento que se possuía na época e toda a moralidade embutida nesse (que apesar de Freud ter ido contra muitos tabus, ainda podemos encontrar certos entraves). Mas a Psicanálise já passou dos cem anos e diversos autores colaboraram e colaboram para o seu desenvolvimento.

A Psicanálise também demorou a ser aceita no meio acadêmico por conta de muitos preconceitos médicos na época. Entre eles estão os fatos de que Freud praticou e desenvolveu sua ciência fora das universidades e procurava a explicar para pessoas comuns, utilizando uma linguagem coloquial, isso além de lidar com assuntos até hoje considerados tabus na sociedade (ainda assim, o que vemos nas universidades hoje, não é exatamente a Psicanálise, mas uma Psicologia com base Analítica).

Freud escreveu seus trabalhos numa linguagem coloquial para época na tentativa de alcançar um grande número de pessoas e transformar a Psicanálise num conhecimento popular. E ainda, procurava não formular conceitos fechados, pois isso seria um reducionismo da experiência. (Isso me faz lembrar de Sócrates que nunca escreveu sua filosofia, pois acreditava que isso tornaria seu conhecimento estático). Alguns críticos utilizam essa característica para afirmar sua não cientificidade e categorizar Freud como um literário.

Foi quando a Psicanálise chegou aos Estados Unidos que começaram as más traduções a organizando em conceitos fechados para dar-lhe uma aparência mais científica. Porém, isso realmente a tornou reduzida e passível de más interpretações. O maior exemplo disso se refere à tópica do Ego, Id e SuperEgo, que não são nada coloquiais em nossa linguagem (A versão brasileira da obra completa de Freud foi traduzida do Inglês; apenas nos últimos anos que estão publicando uma nova tradução diretamente do Alemão). Em alemão Ego, Id e SuperEgo é, respectivamente, Ich (Eu), Es (3ª Pessoa do singular neutro, o mesmo que "It" do inglês) e Über-Ich (além, sobre ou acima do Eu).

A maior contribuição de Freud foi seu postulado sobre o Inconsciente. Antes dele, alguns filósofos já haviam discursado sobre uma área do psiquismo humano além da consciência, mas nunca o explicaram como Freud o fez. Sendo o Inconsciente o objeto de estudo da Psicanálise, é inegável sua existência depois de todas as demonstrações de sua expressão no pensamento e comportamento humano. Negar o Inconsciente é um absurdo como negar a Teoria da Evolução.
Mesmo as Psicologias (que tem como objeto de estudo o Consciente e o Comportamento Humano) não negam o Inconsciente, elas apenas se limitam a trabalhar com outros aspectos do ser humano.

Freud escreveu que considerava o Inconsciente a terceira ferida Narcísica da humanidade. A primeira seria com Copérnico e o Heliocentrismo (não somos o centro do universo); a segunda com Darwin e a Teoria da Evolução (não estamos acima das leis naturais), e o próprio Freud com o Inconsciente (não somos os senhores de nós mesmos). Parece-me que ele estava certo, pois esse seu conceito continua incomodando muitas pessoas.

As críticas mais comuns contra a Psicanálise são: que é uma ciência Judaica, uma crítica evidentemente racista (usada pelos Nazistas quando queimaram seus livros), e sugere que todos os Judeus cultuam o sofrimento, a culpa e a depressão; e, que não seria uma ciência porque apenas ela se explica, crítica essa formulada por pesquisadores das ciências naturais e exatas (geralmente Americanos que adoram estatísticas em seus estudos), mas se esquecem que a Psicanálise não é uma ciência Natural e sim Humana, ou seja, possui outras formas de validação, principalmente na tradição Européia.

Quando se trata da intersubjetividade, não é possível realizar dados estatísticos ou reprodução em laboratório. Entretanto, a Psicanálise possui um objeto de estudo delimitado, um método, técnicas de trabalho e uma comunidade científica de estudos produzindo conhecimento, características suficientes para enquadrá-la nas ciências. Alguns podem dizer que a Astrologia também possui essas características, mas na Astrologia não é possível observar resultados empiricamente, ao contrário da Psicanálise. Existem estudos (das ciências naturais) sobre depressão, que comprovam a eficácia das terapias tanto quanto uma medicação antidepressiva.

O que suponho, é que as Ciências Naturais só reconhecem um conhecimento quando são passados por seu crivo, principalmente quando se trata de um conhecimento humano utilizado na saúde (com certa razão nesse ponto). Não vejo dúvidas sobre a cientificidade da Sociologia ou da Antropologia, também Humanas, mas sem aplicação direta na saúde. Porém, elas (as Ciências Naturais) também deveriam considerar os ganhos de cada paciente analisado ao invés de se restringir a críticas teóricas e epistemológicas.

Outro ponto de críticas, está relacionado a um dos materiais de estudo da Psicanálise: os sonhos. Vemos nas bancas de jornal livrinhos de interpretações de sonhos, mas isso nada tem haver com Psicanálise. Para se interpretar um sonho é preciso percorrer um longo processo analítico, pois não existem fórmulas exatas para isso e, muito menos, um significado comum para todas as pessoas.

Além de tudo isso, os Psicanalistas não colaboram para responder as críticas recebidas. Atualmente isolam-se em sociedades fechadas (quase secretas) e sobrevivem através de um comportamento autofágico (um alimenta o outro, sem nunca procurar as pessoas fora de seu círculo). Perdeu-se a cultura de Freud para transformar a Psicanálise num conhecimento popular.

Também existe a falta de esforços por parte dos Psicanalistas para regulamentar sua profissão. No Brasil, não há uma legislação para a formação do Psicanalista, abrindo brechas para péssimos profissionais em consultórios utilizando um título que não lhes cabe. E, a total ausência de fiscalização também permite a proliferação desses charlatões que utilizam bizarrices como terapias com cristais, prismas, pirâmides, energias místicas, vidas passadas, orações, etc.

Falta nos Psicanalistas a abertura para uma comunicação com as comunidades científicas e sociais. Só assim todos esses preconceitos contra a Psicanálise seriam vencidos.

3 comentários:

Garfield disse...

Isto non ten nada que ver con parapsicologia!

hehehehehe

Marcus Holst Eliseire disse...

Olá, gostei do teu artigo. Estou inaugurando meu blog de psicanalise e acho que vais gostar do meu primeiro artigo, que tem um pouco a ver com este que postaste:
http://psicoanalysis.blogspot.com/2010/07/cala-tua-boca-psicanalista-se-queres.html

Anônimo disse...

"As críticas mais comuns contra a Psicanálise são: que é uma ciência Judaica, uma crítica evidentemente racista"

Mais comuns só se for nas defesas da psicanálise, como tentativa de apelo a piedade e de tentar já colocar o crítico como suspeito de ser racista -- ao mesmo tempo em que farão vista grossa ao racismo e sexismo de Freud.



"que não seria uma ciência porque apenas ela se explica, crítica essa formulada por pesquisadores das ciências naturais e exatas (geralmente Americanos que adoram estatísticas em seus estudos), mas se esquecem que a Psicanálise não é uma ciência Natural e sim Humana, ou seja, possui outras formas de validação, principalmente na tradição Européia."

Besteira, você pode eximir QUALQUER PSEUDOCIÊNCIA, qualquer teoria que "se explica" com esses critérios de que precisaria de uma outra metodologia de validação. Se algo realmente funciona, se os seus mecanismos realmente descrevem a realidade, isso deverá ser sempre algo constatável em linhas gerais "Popperianas". As teorias devem poder ser refutáveis, não se adequarem a qualquer possível observação. No que o freudianismo se enquadra nisso, quando não há observação contrária, a observação superficial não é prova do mecanismo imaginado, não mais do que de ser influência de telepatia de extraterrestres.

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